Pular para o conteúdo Dr. Rui FariaCardiologista · CRM-RN 5596 · RQE 2328 Agendar consulta ↗
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Escore de Cálcio Zero Não É Artéria Limpa: Onde a Placa se Esconde

Cardiologista analisando exame de ultrassom vascular de carótida em monitor com Doppler colorido

Cerca de 30% de todas as mortes no Brasil têm origem cardiovascular — aproximadamente 300 mil óbitos por ano, segundo o Ministério da Saúde. A maior parte desses eventos começa décadas antes do primeiro sintoma, na forma de placas que se acumulam silenciosamente na parede das artérias. É exatamente esse intervalo que a cardiologia de precisão tenta encurtar.

Nesse esforço, nenhum exame ganhou tanto espaço quanto o escore de cálcio coronariano. Ele é barato, rápido, não usa contraste e não depende de um operador experiente. Quando o resultado vem zero, a conclusão mais comum — de paciente e de muitos profissionais — é direta: "minhas artérias estão limpas".

O problema é que essa frase diz mais do que o número é capaz de dizer. Escore zero e ausência de aterosclerose não são sinônimos. Entender a diferença entre os dois é o que separa uma estratificação de risco bem-feita de uma falsa sensação de segurança.

O que o escore de cálcio mede — e o que ele não mede

O escore de cálcio é obtido em uma tomografia computadorizada de baixa dose, sem contraste. O aparelho procura depósitos de cálcio nas paredes das artérias coronárias (os vasos que irrigam o músculo do coração) e traduz esse achado em um número. Quanto maior o número, maior a carga de calcificação coronariana e, em geral, maior o risco de eventos como infarto.

Aqui está o ponto que quase nunca aparece nas explicações rápidas: a aterosclerose — o processo de acúmulo de colesterol, células inflamatórias e tecido fibroso dentro da parede arterial — tem fases. A placa começa mole, rica em gordura e inflamação. Só depois de anos ela se calcifica. O cálcio é a cicatriz do processo, não o processo em si.

A placa que a tomografia não vê

Uma placa sem calcificação significativa simplesmente não gera o sinal que o escore mede. Estudos que combinaram escore de cálcio com angiotomografia coronariana — exame que injeta contraste e mostra o interior da artéria — mostram que uma parte relevante dos pacientes com escore zero apresenta placas coronarianas não calcificadas, estruturas que o escore, por definição, não enxerga.

Essa é a razão técnica pela qual o número zero precisa ser lido como uma informação específica — "não há calcificação detectável nas coronárias" — e não como uma conclusão ampla sobre a saúde arterial da pessoa.

A aterosclerose não escolhe uma única artéria

A segunda peça do quebra-cabeça é anatômica. A aterosclerose é um processo sistêmico e multifocal: quem desenvolve placa em um território vascular tende a desenvolver em outros. Coronárias, carótidas (artérias do pescoço, responsáveis por parte importante dos acidentes vasculares cerebrais), femorais e aorta compartilham os mesmos fatores de risco e o mesmo mecanismo de doença.

Foi isso que um dos maiores estudos de imagem cardiovascular já fez ao medir, no mesmo grupo de pessoas, o cálcio coronariano e a carga de placa carotídea ao ultrassom. O estudo BioImage, publicado no Journal of the American College of Cardiology (2024), acompanhou 5.716 adultos assintomáticos com ultrassom vascular e tomografia, e mostrou como a aterosclerose em múltiplos territórios se distribui de forma desigual entre faixas de risco — incluindo pessoas com achados em um território e não em outro. Em levantamentos populacionais reunidos em uma revisão publicada no Journal of Clinical Lipidology (2026), a prevalência de placa carotídea subclínica entre pessoas com escore de cálcio zero foi expressiva — em alguns grupos, mais da metade dos avaliados.

Ou seja: um exame que mede só as coronárias descreve apenas um dos territórios onde a doença pode estar instalada.

O que a evidência diz — e o que as redes sociais exageram

É importante evitar a simplificação oposta. Vários posts recentes afirmam que o ultrassom de carótida "detecta a aterosclerose que o escore de cálcio perde inteiramente" e deixam a impressão de que o escore seria um exame ultrapassado.

Os dados não sustentam isso. O MESA (Multi-Ethnic Study of Atherosclerosis), uma das coortes mais citadas da cardiologia preventiva, comparou o escore de cálcio com medidas de ultrassom carotídeo e mostrou que o escore de cálcio continua sendo o melhor preditor isolado de eventos cardiovasculares globais. Para acidente vascular cerebral e ataque isquêmico transitório, o desempenho das duas abordagens é semelhante.

A leitura correta, portanto, não é "um exame é melhor que o outro", e sim que eles respondem a perguntas diferentes. O escore de cálcio informa sobre o território coronariano e sobre a carga calcificada. O ultrassom vascular informa sobre placa em carótidas e femorais, inclusive em fases não calcificadas. Em um paciente com escore zero e risco persistente, essa segunda informação pode mudar a conduta — e é aí que a avaliação combinada ganha valor.

Regra de decisão: como eu leio um escore de cálcio zero

  • Zero em paciente de baixo risco, sem agravantes — o resultado tem bom valor preditivo negativo. Faz sentido tratar o que existe: pressão arterial, glicemia, tabagismo, sedentarismo, e reavaliar a estratificação conforme a idade avança
  • Zero com fatores que pesam contra — lipoproteína(a) elevada, ApoB alto, diabetes de longa duração, tabagismo atual ou pregresso relevante, hipertensão de difícil controle, história familiar de evento cardiovascular precoce em parente de primeiro grau ou LDL colesterol muito elevado. Aqui o zero significa menos, e a investigação costuma precisar de mais um passo
  • Complemento possível — ultrassom de carótidas e femorais, para avaliar territórios fora do coração, e/ou angiotomografia coronariana, que mostra placa não calcificada e a extensão da doença
  • Laboratório sempre junto — o ApoB mede o número de partículas que transportam colesterol, e a lipoproteína(a) é um marcador genético que muda a estratificação. Um exame não substitui o outro
  • Sintoma vence número — dor no peito, falta de ar aos esforços ou redução da tolerância ao exercício exigem avaliação clínica, independentemente do resultado de qualquer escore

Por que "medir só um território" deixa placa fora do radar

Vale detalhar o que está em jogo em cada território. A placa coronariana leva ao infarto. A placa carotídea se relaciona ao acidente vascular cerebral — e frequentemente se manifesta antes como um sopro auscultado no pescoço ou como sintomas visuais e neurológicos transitórios. A placa femoral e a doença arterial periférica aparecem como dor nas pernas ao caminhar, que melhora com o repouso. A aorta pode dilatar silenciosamente até virar aneurisma.

São apresentações clínicas distintas do mesmo processo biológico. Um paciente com escore de cálcio coronariano zero e placa carotídea detectada ao ultrassom não tem "exame normal": ele tem doença aterosclerótica em outro território, e essa informação muda o cálculo de risco — e a intensidade do tratamento preventivo.

O que mudou no Brasil

O acesso à imagem cardiovascular avançada é desigual no país, e a discussão sobre custo-efetividade virou pauta oficial. Em 2026, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) abriu a Consulta Pública nº 73/2026 para avaliar a angiotomografia coronária como exame de primeira linha na investigação da dor torácica estável. O estudo de custo-efetividade que embasa a discussão, publicado nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia — periódico da Sociedade Brasileira de Cardiologia —, é do Departamento de Imagem Cardiovascular da SBC e aponta tanto melhora de desfechos quanto economia de recursos com a estratégia diagnóstica correta desde o início.

O recado prático é o mesmo dos dois lados: o valor da imagem cardiovascular está na escolha do exame certo para a pergunta certa. Fazer mais exames não é fazer melhor. Fazer o exame que responde à dúvida clínica daquele paciente, sim.

O que não fazer com um escore de cálcio zero

Vale lembrar de um princípio mais amplo, que já discutimos em outro artigo deste blog: nenhum exame isolado descreve uma pessoa. Ele descreve uma medida, em um momento, em um território. A interpretação é o que transforma o dado em decisão.

"Escore de cálcio zero é uma boa notícia, e eu digo isso ao paciente. Mas é uma boa notícia sobre uma pergunta específica: existe cálcio nas artérias coronárias? A pergunta que me interessa no consultório é mais ampla — onde está a doença nesta pessoa, e qual é o risco dela nos próximos dez anos. Isso exige olhar para mais de um território e para mais de um marcador." — Dr. Rui Faria

Conclusão: o exame é o começo da conversa, não o veredito

O escore de cálcio coronariano continua sendo uma das ferramentas mais úteis da cardiologia preventiva: é acessível, reprodutível e traz informação real sobre risco. O que ele não faz — e nunca prometeu fazer — é garantir que não exista placa em nenhuma artéria do corpo.

Interpretar corretamente o zero é reconhecer que a aterosclerose é uma doença sistêmica, que pode estar calcificada em um território e mole em outro, e que fatores como lipoproteína(a), ApoB, diabetes, tabagismo e história familiar mudam o peso do resultado. A avaliação combinada — laboratório, imagem do território certo e contexto clínico — é o que permite decidir com precisão quem precisa de mais investigação e quem pode seguir em acompanhamento tranquilo.

Se você tem fatores de risco cardiovascular, histórico familiar de infarto ou AVC, ou recebeu um exame que não ficou claro para você, esse é o tipo de dúvida que se resolve com uma avaliação organizada — antes de qualquer evento, não depois.

Avaliação cardiovascular com interpretação personalizada

O Dr. Rui Faria, cardiologista (CRM-RN 5596 · RQE 2328), subespecialista em imagem cardiovascular, atende em Natal/RN com foco em diagnóstico de precisão e medicina de estilo de vida. Traga seus exames: a consulta começa pela interpretação correta do que você já tem em mãos.

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